Ele as via. Tentava enganar-se desviando o olhar, fingindo que não existiam. Estavam todas lá.
Via cada trinca, cada pedaço que ameaçava cair, cada deformação. Como um espelho quebrado, as mágoas e rancores se acumulavam. Não conseguia escondê-los.
Sabia que ela esperava a resposta.
Já não conseguia decidir se acreditava, se continuava. Procurava nesgas de sinceridade, uma bóia a que pudesse se agarrar.
Depois de tantas mentiras, como confiar? Valia a pena perdoar e não esquecer? Como enterrar tantas malditas lembranças? Tantas desculpas, histórias mal-contadas, ligações perdidas e atrasos inexplicáveis. Como voltar a acreditar?
Procurou motivos. Viu nos pedaços que sobraram um reflexo feio, mas ainda um reflexo. Pena que já não podia consertar.
- Tudo bem. Acredito em você.
Sentiu que outra trinca se formou. Talvez um pedaço vá cair.
2014/07/27
2014/07/10
Devaneios
"Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó".
Cartola
Tomou mais um gole enquanto a esperava. Boca seca. Atrasada como sempre.
Ligou mais uma vez. Fora de área.
Foi quando começou a se questionar. Lembrou dos anos juntos e dos desencontros e reencontros. Dos risos e choros, dos muitos desacertos.
Pensou. Pensou naquele lado negro que gota a gota lhe sussurrava que algo estava errado. Não eram só ciúmes.
Desta vez era diferente. Ela não estava mais lá. Estava em outro lugar. Havia visto a lingerie nova, percebido os horários descoordenados, as desculpas cada vez mais frequentes, a constante indiferença e o desejo sempre ausente.
Queria que tudo fosse mais simples. Que pudesse escolher os caminhos retos e desprezar os tortos. Que agisse sem precisar de trancos. Que não precisasse de certezas, já que quase a tinha.
Queria deixar tudo para trás. Esquecer e viajar, para o Paraguai que fosse. Soltar-se no mundo e sentir-se livre, leve. Dançar com um par novo e fugir.
Seria tudo muito mais fácil se não a amasse.
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó".
Cartola
Tomou mais um gole enquanto a esperava. Boca seca. Atrasada como sempre.
Ligou mais uma vez. Fora de área.
Foi quando começou a se questionar. Lembrou dos anos juntos e dos desencontros e reencontros. Dos risos e choros, dos muitos desacertos.
Pensou. Pensou naquele lado negro que gota a gota lhe sussurrava que algo estava errado. Não eram só ciúmes.
Desta vez era diferente. Ela não estava mais lá. Estava em outro lugar. Havia visto a lingerie nova, percebido os horários descoordenados, as desculpas cada vez mais frequentes, a constante indiferença e o desejo sempre ausente.
Queria que tudo fosse mais simples. Que pudesse escolher os caminhos retos e desprezar os tortos. Que agisse sem precisar de trancos. Que não precisasse de certezas, já que quase a tinha.
Queria deixar tudo para trás. Esquecer e viajar, para o Paraguai que fosse. Soltar-se no mundo e sentir-se livre, leve. Dançar com um par novo e fugir.
Seria tudo muito mais fácil se não a amasse.
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