2004/07/30

Conto Meu: Série "Entendendo as Mulheres"

Sexo

"Eu daria qualquer coisa para dar-me à você
Pode esquecer o mundo que você pensava conhecer
Para me encontrar,
Venha e encontre-me
Nada está o impedindo de libertar-me.

Eu farei qualquer coisa que você pedir, apenas diga
Eu acreditarei
Em todas as suas mentiras
Apenas finja me amar
Finja
Tudo sem você me magoar
Desejo nunca nunca morrer
Eu serei tudo que você precisa"


Será que ele me acha feia? Por que ele não veio para perto? Não, lembro como seus olhos ficaram fitando minhas pernas. Acho que o problema naquela festa foi a maquiagem, e olha que eu falei para a Gi como aquele salão era horrível.
-Bem, você parece tão distante hoje.
-Impressão sua, amor!
Eu vou investir nele hoje à noite. Acho que vou usar aquele vestido vermelho curtinho, com um salto 12 combinando. Vai ser impossível ele não chegar, fingindo querer apenas conversar. Nossa, vou ter que fazer o cabelo ainda hoje, e as unhas, que estão horríveis!
-Bem, estou quase no final.
E o Ricardo, como vou mantê-lo longe? A Ritinha! Vou pedir à Ritinha para levar o primo, que gosta de conversar. Será igual ao mês passado, quando os dois ficaram próximos ao bar tomando seus uísques e me esquecendo.
-Aaaaah. Bem, foi muito bom.
-Também, gostei. Você faz amor muito gostoso!

2004/07/28

Conto Meu: Série "Entendendo as Mulheres"

Traição

"Why do we crucify ourselves
Every day
I crucify myself
Nothing I do is good enough for you
I crucify myself
And my heart is sick of being in
I said my heart is sick of being in Chains"
Tori Amos - Crucify

Amor,
não sei como consigo escrever. Dói tanto por dentro que quase não consigo mover a caneta. E se eu não conseguir dizer o que preciso? E se apenas se alastrar como uma dor contagiosa e fatal? Como será?
Sei que você vai dizer que sou uma covarde, por não ter coragem de lhe enfrentar e dizer tudo frente-a-frente. Sim, hoje rasguei suas roupas, quebrei suas garrafas de uísque, afoguei minha raiva. No entanto, isso não compensa nem uma pequena parte do que você me fez sofrer.
Você não entende não é? Não entende como não posso esquecer o momento em que lhe vi com suas mãos de dedos inesquecíveis na cintura da outra, com o seu sorriso no sorriso da outra, com suas palavras no ouvido da outra, com sua língua na boca da outra. Quis fugir, quis me esconder, quis agarrá-lo, quis gritar, desesperar com a vida, mas apenas consegui sair da sua vista e procurar um canto.
Naquele momento não chorei. As lágrimas vieram e encheram meus olhos, mas eu não chorei. Não sei bem, mas meus olhos talvez estivessem mais confusos do que meus pensamentos, mais apertados do que meu coração, havia lágrimas, sim, mas talvez não houvesse razão ou espaço para que eu lhes desse vida. Por isso, ninguém viu quando as lágrimas abortadas morreram dentro de mim.
Bem que eu gostaria mas eu não consigo esquecer. Eu queria, quando você veio me pedir perdão e chorou. Eu queria quando voltamos a nos encontrar e a nos amar, mas eu não consigo. Há algo dentro de mim que se rasga toda vez que eu o vejo sorrindo, conversando com uma amiga, toda vez que você se atrasa enquanto estou à sua espera, toda vez em que você desvia o olhar e fica pensando, com a expressão que conheço tão bem, em algo que tento adivinhar. Descobri que continuar com você é me matar um pouco a cada dia.
Sei que se nos encontrarmos eu não conseguiria lhe enfrentar. Sei que você iria tentar me convencer a ficar, e eu....Como conseguiria resistir aos seus olhos que me despiram, às palavras que já me seduziram? Não, prefiro deixar apenas esta carta e espero que você entenda o que consegui escrever.
Se você realmente ainda gosta de mim não me procure. Nem a seu irmão, que está tentando me ensinar a lhe esquecer.

2004/07/26

Conto Meu: Série "Entendendo as Mulheres"

Amor à Primeira Vista

"Love is a dog from hell"
Charles Bukowski

Doutor, o senhor não entende. Eu tinha que fazer. Não, não roubei nada. Não sou ladra não, viu doutor? Só por que caí na vida não deixei de ser honesta. Onde? Eu estava em meu ponto, sempre vou para lá a partir das 8. Estávamos eu e a Dorinha, somos amigas, é perigoso ficar sozinha quando se está na rua. Eu sabia que ia acontecer, sabe doutor? O pastor bem que me avisou que o demônio iria me tentar essa semana. Sim, ele parou o carro e me chamou. A Dorinha viu. Eu sabia que podia me perder assim que ele me olhou. Sabe, doutor, ele tinha um olhar fundo, daqueles que parecem enxergar dentro de você. Eu balancei, mas a vida é a vida, eu tinha de ir. Ele falou que queria fazer uma festinha com os amigos, até conversou com a Dorinha, mas achou o preço das duas caro. Então eu fui com ele. Como aconteceu? Doutor, eu tinha de fazer, se não eu ia me perder. No começo, dentro do carro, eu ainda estava tranquila. Então ele parou de repente e me olhou. Meu coração disparou, sabe quando parece que vai saltar pela boca? Ele me olhou, com aquele olhar que não esqueço, pegou na minha mão e me beijou. Eu senti, doutor, senti que tinha me perdido, senti que ele me tinha e que eu tinha de fazer. Foi então que peguei o canivete na bolsa e o furei.

2004/07/22

Conto Meu: Corações Solitários

"Do you ever just get down on your knees and thank God that you know me and have access to my dementia?"
George Constanza - Seinfeld

Cena 1:Sala de transmissão de uma estação de rádio, com uma mesa central, dois microfones e cadeiras.
[Locutor]:Boa noite, amiga ouvinte! Estamos começando mais um programa "Corações Solitários". Onde escutamos seu coração que conhece todas as coisas, pois veio da Alma do Mundo e um dia retornará para ela. Agora a astróloga Yoná Gisleine irá mostrar o que os astros nos reservam sobre a vida amorosa.
[Assistente em voz de falsete] Para você que é de Áries, hoje a conjunção dos astros indica que pode ser o dia em que irá encontrar sua cara metade.Urano está entre Mercúrio e Júpiter, indicando que seu amor pode ser encontrado. Olhe para os lados porque ele está mais próximo do que imagina.
[Locutor]: Agora vamos escutar a uma música romântica."O Guarda Costas" da cantora Uitinei Riustom. Amiga ouvinte, lembre-se sempre de que o amor é formado de uma só alma, habitando dois corpos.
[Assistente]: O que houve? E os outros signos?
[Locutor]: Idiota, não sabe nem escrever um horóscopo? Basta apenas falar "tal" está em conjunção com "tal". A carta de hoje foi você que escreveu?
[Assistente, orgulhoso]: Foi.
[Locutor em voz baixa]: Bosta de emprego!
[Locutor ao microfone]: Hoje vamos relatar a história da ouvinte Ana...U..Uai..Uáixóski, que nos enviou uma carta de Paraupebas no Pará.
[Locutor, lendo um texto]: "Caro Amigo, sou uma mulher independente, tenho curso superior e um trabalho que é minha paixão: faço garrafas de Leyden. Ontem meu pai brigou com meu namorado e não permite que nos vejamos, pois ele é da família Cur...Curov..Curovóski. Estou desesperada, pois ele é minha vida. O que faço?"
[Locutor]: Ana, não permita que o amor entre vocês seja interrompido por outros. Lute pelo que você quer e vá em busca de sua felicidade. Não se intimide pelos percalços da vida que irão surgir na história de vocês!
[Locutor]: Agora uma música que Gizovaldo oferece para Eliete, em nome do amor, "Oceanos" de Dijávan.
[Locutor para o Assistente]: Romeu e Julieta de novo? Duas famílias com esse nome no interior do Pará? O que diabos é uma garrafa de Leyden?
[Assistente, didático e orgulhoso]: Uma garrafa de Leyden é um tipo de capacitor de alta tensão de uso comum em eletrostática.
[Locutor olhando para cima]: Bosta de emprego!
[Locutor ,olhando para o assistente]: Não há nenhum texto que não seja um desses seus?
[Assistente]: Para falar a verdade há uma carta, mas não sei se vale a pena utilizar.
[Locutor]: Uma carta. Uma carta verdadeira? Claro que vou ler.
[Locutor- ao microfone]: Agora iremos ler uma carta de um ouvinte que se auto-intitula "Sonhador Mascarado".
[Locutor - lendo o texto]:
"Sou um homem dividido por um amor não correspondido a outro homem. Ele trabalha comigo e não tenho coragem de contar. Mesmo sem saber, ele não me respeita, faz caso de mim, maltrata-me e meu coração fica em pedaços. O que devo fazer?".
[Locutor]: Sonhador Mascarado, conte o seu amor. Não se envergonhe dele. Tenho certeza que, apesar das dificuldades, ele será entendido e que mesmo que a pessoa que ama não o corresponder, lhe respeitará e, quam sabe, aprenderá a lhe amar.
[Locutor olha para o assistente]
[Assistente, olhando para o Locutor]: Eu sabia!
[Locutor]: Bosta de emprego!

2004/07/18

Conto Meu: Modernidades

"Feliz era meu pai que,  para conquistar minha mãe, não precisava saber o que era sushi!"
Nick Hornby - Alta Fidelidade
 
No bar, a conversa estava começando a ficar cansativa. Fiquei olhando para cima enquanto os dois colegas conversavam sobre esportes.
- E a final de ontem do Bayern de Munich com o Borussia?
- Passou na TV a cabo, não foi? Não cheguei a ver mas li a respeito na Internet. Parece que o jogo foi bom. E vc, o que achou?
Eu não achava nada. Quando foi que tornou-se obrigatório que todo torcedor tupiniquim acompanhe as notícias do futebol alemão?
- Não, não vi e nem li a respeito.
- Deixa, ele não quer conversar.
Certo, é mais fácil acreditar que não quero conversa a crer que não fico aprendendo alemão decorando nomes de jogadores de futebol.
- Por que não mudamos de assunto? Realmente, não estou muito para futebol.
- Tudo bem. Ontem comecei a escutar a uma banda bem legal. Acho que vc vai gostar. Eles tocam um rock construtivista, experimental, com eletrônica. Foi muito difícil baixar os MP3. O nome deles é SnowBall. Já ouviu falar?
- Não.
- Vou gravar um CD para vc!
- Não, não precisa. Não sou grande fã desse tipo de rock....
- VOU GRAVAR PARA VC!
Eu estava prestes a me tornar o primeiro a brigar por não querer receber um CD de presente. O pior é que eu sei que após recebê-lo serei obrigado a entrar na Internet, descobrir tudo sobre a banda e fingir interesse, se não vou ter de brigar depois também.
-Ok, obrigado.
Silêncio. Um olha para o outro demonstrando incômodo. Eu fico pensando em um assunto que não permita que alguém cite Internet, TV a Cabo ou novidades High-Tech.
- O que vcs acham da violência, hein? Cada vez pior...
Olham para mim como se fosse um alien.
- Violência. De onde vc tirou esse assunto?
- Sei lá. Por que não pode haver conversa a respeito?
Silêncio novamente. O Celular tocou.
-Alô, oi amor.
Os amigos fazem aquela cara divertida. O clima ficou mais leve. Eu sei, eu sei, coleira eletrônica.
-Não amor, não li seu e-mail. O quê? Era importante? Enviou há três dias?
Devo confessar que meu desencanto com o mundo digital estava em tal ponto que eu estava evitando acessar a Net. O problema é que agora namorados são obrigados a ler e enviar e-mails carinhosos, acho que faz parte dos novos relacionamentos. Vou arriscar, se não terei de me esforçar para acessar a Internet de algum lugar....
-Amor, acho que seu e-mail foi perdido!
-Mentiroso? Como assim? Tinha recibo de entrega?
Desligou. Os colegas me olham com cara de reprovação.
-Vc não leu o e-mail dela e inventou que não tinha chegado.
-Foi. Por que afinal não posso deixar de ler meus e-mails por 3 dias. Cartas demoram mais tempo para ser entregues. Além disso a maioria é inútil e só acesso para apagar.
-PUTZ, VC DEVE ESTAR APAGANDO OS E-MAILS QUE ENVIO!
Ih, hoje não é o meu dia.Realmente, não tenho paciência para os ler.
-Não, que é isso. Leio todos.
-Qual foi o último?
Vou fazer como o Sting e habitar com uma tribo indígena.Ei, os índios ainda não têm acesso à Internet. Não é? Ou já têm?


Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças

Vejam só que maravilha de roteiro foi escrito pelo Charlie Kauffman neste filme estrelado pelo Jim Carrey e a "Titanic" Kate Winslet. Espero que abram espaço aqui em Manaus para ele....
 
Arrasado ao descobrir que sua namorada, Clementine, pagou a um médico para eliminá-lo das suas lembranças, Joel decide fazer o mesmo. Deitado em sua cama e inconsciente enquanto um técnico localiza suas memórias de Clementine e as apaga, Joel, porém, responde mal ao tratamento. Enquanto cada experiência que passou com a namorada ressurge e é brevemente revivida, há alguma parte dele que permanece alerta e se dá conta de que ele não vai se livrar apenas daquilo que lhe causa dor: os bons momentos estão escoando pelo ralo junto com os momentos ruins – e até esses, afinal, ele gostaria de preservar. Em seu desespero, Joel tenta esconder Clementine em partes do seu cérebro que o técnico não mapeou. Ele a leva para as humilhações da adolescência e para as confusões da infância, correndo com Clementine por entre o labirinto daquilo que ele foi antes de conhecê-la, com o técnico sempre em seu encalço. Quanto mais imaterial a namorada se torna, maior sua certeza de que ele está cometendo um erro terrível: com ou sem Clementine ao seu lado, Joel precisa que ela exista.

2004/07/17

Solidão

Ontem ao adentrar no apartamento e perceber que estava sozinho senti uma sensação estranha, aguda como uma fratura exposta. Um vazio sentimental, uma necessidade de ter uma parceira ao meu lado, para conversar, trocar carinhos. Eu estava precisando de colo.
Não estou habituado a sentir-me só. Na verdade sempre valorizei meu lado ermitão, de não precisar de ajuda ou companhia no dia-a-dia. Sempre gostei de me manter fechado e de tentar controlar o quanto eu me entregava às namoradas e casos. Meu lado racional e controlador trabalhava tentando me preservar de uma possível decepção, evitando gostar de alguém. Fiz isso por tanto tempo, tornou-se tão arraigado que nunca sofri por alguém nos últimos 10 anos. Não me deixei gostar.
As namoradas sentiam-me distante e os relacionamentos nunca foram longos. Eu sempre pesei o quanto poderia ser magoado e demonstrei até onde elas poderiam ir. Nunca falei que gostava de alguém. Nunca enviei flores, poesias, ou fiz algum demonstração de que gostava muito.
O engraçado é que hoje olho para trás e sinto que não vivi esses anos corretamente. Não me deixei sofrer, porém não me senti feliz. Este sentimento já me acompanha há algum tempo e eu decidi mudar esse lado desde que ao terminar meu último (penúltimo?) relacionamento fui confrontado com essa verdade pela namorada (que agora vejo que realmente gostava de mim).
E ontem a solidão se mostrou, de uma forma que só quem guarda sentimentos até que eles transbordem sabe. Também contribuiu o fato de que estou tentando mudar e que agora me sinto mais próximo ao me relacionar. Toda mudança dói.
Houve um lado bom. Liguei para excelentes amigos e escutei o que precisava (thanxs Santana & Doug). Ajudaram-me muito.

2004/07/16

Conto Meu:Julieta

"Romeu, despoja-te de teu nome e, em troca de teu nome, que não faz parte de ti, toma-me toda inteira!"
(Romeu e Julieta - Uiliam Xeiquispir)

Acordou e olhou para ela. Ficaram assim um bom tempo, olhando um para um outro, aproveitando a preguiça sem nada dizer. Então ela tentou se levantar e, como se só naquele momento se apercebesse da nudez sob os lençóis, gesticulou chamando sua atenção. "Amor, pega uma toalha para mim".
Achou engraçado aquela timidez repentina, como se a luz apagada na noite anterior tivesse escondido a visão do corpo nu. Levantou-se, abriu o armário e satisfez o pedido. "Vou para a sala enquanto você se veste".
Colocou o CD do Roberto enquanto a via entrar no banheiro. "Amor, aumenta um pouco!". Sentou-se e divertiu-se a escutando cantar."Você não sabe, mas é que eu tenho cicatrizes que a vida fez. E tenho medo, de fazer planos, de amar e sofrer outra vez."
Ela abriu a porta timidamente, como se não conhecesse o apartamento, como se não fossem amantes. "Amor, você acha que estou ficando gorda?"."Não, não está". Olhou para o espelho novamente, incrédula. "Tenho que voltar a fazer academia".
Vestiu a calcinha pendurada - "Não olhe!". Depois penteou os cabelos molhados vagarosamente, enquanto conversavam. "Vamos sair amanhã?". "Você gosta muito dessa música,né?"."Reparou no que fiz no cabelo?". "Tenho que me lembrar de pagar as contas"."Amor, pega minha roupa?".
Ele ligou a TV enquanto a esperava. Jornal. Viu-a sair para o quarto e admirou novamente suas coxas."Só um minutinho!".
Finalmente ela voltou, tascou-lhe um beijo e apressadamente abriu a porta. "Tchau, amor". Fingiu desinteresse. "Tchau."
Olhou para a TV, enquanto a solidão chegava e vagarosamente ia tomando conta do apartamento.

2004/07/15

Os 30 anos

Do alto dos meus 29 anos recém-completados, aguardo em contagem regressiva a chegada daquela que é a idade de múltiplas crises: os 30 anos.
Trintões perdem aquela "aura" de adolescentes tardios que podemos ter aos 20. A sociedade passa a cobrar que sejamos senhores responsáveis, ilustres pais de família. Bebedeiras, festas...Como? Ele tem trinta anos. Deveria ter vergonha!
O que dizer de namorar mulheres mais novas? Sair com uma garota de 18 anos passa a ser alvo de preconceitos. Imagine! Você quase pode ter a idade do pai delas!
Mesmo as apresentações passam a ser diferentes. Em vez de perguntarem se vc já é casado, a pergunta passa a ser "Quantos filhos vc tem?"
No entanto, com certeza, o horror deve ser completar 40 anos e viver à sombra dos exames de próstata periódicos.

2004/07/14

Tatiana

Há pouco mais de 12 anos em um Carnaval, a conheci. Lembro que a achei bonita, desde a primeira vez que a vi. Ela era (é?) uma mulher do tipo que só se encontra no Brasil: morena de olhos verdes, corpo bem torneado, cabelos lisos pretos.
Na confusão da folia nos encontramos. Após algumas horas de conversa (não, não foi fácil!) terminamos a noite juntos. O Carnaval só tinha mais um dia.
Na noite seguinte combinamos de nos encontrar, na sexta após o Carnaval (não lembro o porquê de não poder ser na quinta). Pra minha surpresa, ela contou-me que a mãe iria fazer doutorado na França (Grenoble); e que iria viajar no domingo(!).
Não conseguimos nos ver novamente. Houve problemas que tinham de ser resolvidos antes da viagem e não houve tempo. Trocamos algumas cartas, que ainda tenho guardadas.
A Tatiana representou um encontro de apenas duas noites. Tudo muito rápido. Cresci e mudei muito desde então. No entanto, de vez em quando, imagino como seria se a reencontrasse. Por que penso nisso? Não sei, talvez por ter sido um amor de Carnaval interrompido. No entanto houve vários outros - faz doze anos. Por que ainda lembro nela? Memórias adolescentes?

Melancolia

Sinto saudades.
Das brincadeiras no sítio da minha avó. Dos pés de goiaba, do terreno, onde andávamos de bicicleta.
Da primeira namorada. Do primeiro beijo, imitando o casal das novelas.
Das noitadas de bebebedeira com os grandes amigos de Brasília.
Do caldo de cana e da garapa de rapadura, que provava quando viajava com meus pais no fim de semana.
Dos amores de timidez que tive, e que nunca souberam que delas gostava.
Das férias despreocupadas na casa de meus pais.
Dos Carnavais e de seus excessos, hoje tão distantes.

2004/07/09

Thom York is God!

Hoje eu escutei pela enésima vez o clássico do Radiohead "OK Computer". Parece incrível, mas algumas letras, mesmo após decoradas e cantadas diversas vezes mudaram seu significado.
É o caso principalmente (para hoje) de "No Surprises". Hoje, para mim, a letra representa o comodismo de se estar preso a uma rotina diária, a qual, apesar de insatisfatória, de não dar motivos para continuar a segui-la a cada dia, não se consegue abandonar pelo medo da mudança. Lembra bem uma época de minha vida.

No Surprises
A heart that's full up like a landfill,
a job that slowly kills you,
bruises that won't heal.
You look so tired-unhappy,
bring down the government,
they don't, they don't speak for us.
I'll take a quiet life,
a handshake of carbon monoxide,

with no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
Silent silence.

This is my final fit,
my final bellyache,

with no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises please.

Such a pretty house
and such a pretty garden.

No alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises please.

2004/07/08

Alma Gêmea

Domingo último conversei com um velho amigo, o Dougo. Não conheço pessoa mais especial, seja por suas opiniões e convicções, únicas; seja por insistir em vivê-las, quando seria muito mais fácil apenas falar, e não fazer. Como fazia tempos que não conversávamos (uns 6 meses), Doug não estava atualizado em relação à minha vida.
- Fabee, está namorando?
- No momento não Doug. Estou solto no mundo. Essa vida de nômade dos últimos meses faz com que eu terminasse aquele último namoro ....
- Fabee, não se preocupe, pois Deus irá encontrar a mulher certa para vc.
Após a conversa, essa última frase me fez pensar bastante. Caro leitor, apesar da menção ao nome divino, Dougo não estava tentando pregar para mim. Ele realmente acredita que cada um de nós possui uma Alma Gêmea única, escolhida por Deus e com a qual iremos viver felizes pelo resto de nossas vidas. Foi assim ao encontrar a Tati, esposa e quase mamãe. Impressiona o modo como ele fala da esposa, como se fosse a única mulher no mundo, e como um estava destinado ao outro.
Em um mundo onde é comum primeiro se fazer sexo para depois o casal pensar se deseja ver um ao outro no dia seguinte, meu amigo é um caso único. As pessoas com quem convivo costumam ter casos extraconjugais quando casados - entre homens o comportamento é aceito e tacitamente protegido. Os que da minha idade ainda estão solteiros, possuem um medo crônico de compromisso (assumo que também o tenho); de perder a liberdade ao casar-se ou de engravidar alguém e , em casos crônicos, até mesmo de namorar.
A liberdade em excesso trouxe relacionamentos numerosos, rápidos e fúteis. Não que eu a rejeite; no entanto havia algo naquele namoro restrito de nossos avós que foi perdido nos dias de hoje. Inocência? Talvez. Um pouco de romantismo não faz mal. Talvez apenas a facilidade tenha feito com que hoje, minha geração não dê o devido valor a encontrar a cara metade.
Dougo, tenho orgulho de ser seu amigo.

2004/07/01

Getting Back

Após mais de um mês sem escrever neste espaço, resolvi voltar a preenchê-lo. Muita coisa mudou: trabalho, amigos, cidade, apartamento.... Putz.Vida de Nômade.
O engraçado é que após pouco mais de 1 mês de Manaus já estou sentindo a rotina incomodando. Será que tenho índole de caixeiro-viajante?