2004/08/18

Conto Meu: Pesadelo

"Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela... "
Olavo Bilac

Outro documento. Outra hora com os olhos pregados no monitor e a dor de cabeça apenas aumentava. Após algum tempo fitei o texto piscando na tela e a vista pareceu turvar, tornando-se cada vez mais nebulosa. Repentinamente olhei para o lado e surgiu uma moça simples, de rosto comum, o tipo de pessoa que mesmo após alguns minutos de conversa facilmente se esquece o nome e o rosto.
Observei-a surpreso.
- Quem é você? Como entrou aqui?
- Sou uma conjunção e estou aqui porque você está me esquecendo! Você me trata como se eu fosse igual as outras: apenas escreve “e” isso “e” aquilo. Onde estão minhas amigas adversativas, subordinadas adverbiais, integrantes? Esqueceu do “mas”, “porém”, “todavia”, “pois”, entretanto”? Não me estudou no colégio?
Uma conjunção feminista? Onde eu estava com a cabeça? Estou ficando maluco? Cravei a vista novamente no texto, fechei os olhos e vagarosamente os abri esperando que ela desaparecesse. Agora havia duas!
Em desespero, voltei meu rosto para o lado e levei a mão a cabeça, atônito, enquanto observava a mulher pequena, porém de aparência notável que havia surgido.
- Duas agora? Quem é você?
- Sou uma crase e apareci apenas para você lembrar que eu existo. Você já me esqueceu duas vezes em seu texto! Como pode? Não tem vergonha?
Em um gesto brusco, tirei minhas mãos do teclado, cruzei os braços e as encarei. Decidi não corrigir meu texto. Ficaria daquele jeito por birra. Se eu fosse escutá-las não escreveria mais nada.
-Vocês não desaparecem? Olhem vou continuar a escrever mesmo, com vocês por aqui.
Voltei-me para o teclado e procurei restringir minha visão ao monitor. Resolvi não olhar, novamente quem sabe, assim elas desaparecem.
Como se tivesse surgido do nada uma mulher apareceu em pé em cima de minha mesa. Ela era pequena, muito magra, parecia versátil. Poderia facilmente se deslocar entre várias pessoas.
Agora eu estava entrando em pânico .
-Outra? Não consigo acreditar! Por que vocês não desaparecem? Só surgem lembrando problemas e não me deixando escrever! Quem é você?
- Sou uma vírgula e você me colocou de forma errada pelo menos três vezes em seu texto! Se errar de novo, eu vou me colocar em um lugar bem pior que sua mesa.
Suspirei vagarosamente. Decidi desistir. O que aconteceria se esquecesse um ponto de exclamação? Onde iria aparecer um hífen mal colocado? O que um acento agudo esquecido iria ralhar comigo? Escrever estava ficando cada vez mais difícil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário