2004/08/26

Conto Meu: Série "Entendendo as Mulheres"

Jogo de Adivinhação

“When I'm lying in my bed
I think about celibacy
and I think about sex
And neither one, particularly
Appeals to me

Por sexo.
Insisti em relacionamentos ruins.
Desisti de mulheres legais.
Perdi amigas e sono.
Menti.
Engoli sapos.
Apenas por fragmentos?”

Do amigo Santana (copiado sem autorização)

- Eu te considero um bom amigo.
Fitei os olhos dela, tentando adivinhar o que estava querendo dizer. Amigo? Se fôssemos apenas amigos por que havia esperado tanto tempo, se eu já havia tantas vezes demonstrado querer mais que amizade? Por que havia aceitado meu convite para sairmos juntos? Mal consegui disfarçar meu desapontamento e (sim, claro); uma pontada de raiva.
-Não esperava que dissesse isso.
Separei nossas mãos e me movi para o outro lado da mesa. Aproveitando a proximidade do garçom, pedi outra bebida. Desta vez não perguntei se ela também queria.
Ela não suportou meu gesto.
-Se eu soubesse que você reagiria assim não teria falado.
Encarei-a e examinei seu rosto. Estava séria, com um olhar de preocupação. O que eu devia dizer? Tudo era um jogo. Será que ela estava em dúvida e não sabia se deveríamos nos tornar amantes? Será que havia outra pessoa e ela não queria me contar? Decidi arriscar.
- Não te vejo apenas como amiga.
- Eu sei.
Por que ela não falava o que eu precisava ouvir? Medo de me magoar? Queria que eu a visse como difícil? Voltei meu olhar para o decote generoso nos seios e vagarosamente examinei o pescoço e o rosto, despindo-a. Ela ruborizou e riu timidamente.
Aproximei-me. Segurei sua mão. Tentei roubar um beijo.
Ela fugiu.
-Você não me entende!
Acompanhei enquanto ela pegava a bolsa e ia embora com passos fortes sem se despedir. Tomei outro gole da bebida. Resolvi ligar no dia seguinte.

2004/08/23

Cortando o Cabelo

Eu não deveria ter problemas em cortar o cabelo. Para mim (e para a grande maioria dos representantes da raça masculina), os fios capilares não são sinal de vaidade e não precisam ter um corte diferente ou alterado. Claro, precisam existir e o ditado de que "é dos carecas de que elas gostam mais" é apenas um consolo para os que dele precisam. Em geral, um bom cabeleireiro termina um bom corte em minha cabeleira em minutos, sem nenhuma dificuldade. Por isso costumo procurar locais baratos.
O problema é que exporadicamente surge um profissional da área tão ruim em sua profissão que consegue fazer um corte ruim. Eu repito, o cabeleireiro tem de ser muito bom em errar para me desagradar. Isso ocorreu aqui em Manaus há 6 semanas. Paguei cinco reais e saí com um cabelo todo espetado, sentindo-me o Cebolinha.
Aqui cabe uma explicação às amigas leitoras sobre a psicologia masculina. Sei que devem estar pensando: " foi merecido, vai economizar com o corte de cabelo?" Para nós o cabelo não deve ser um motivo de preocupação. Ele deve apenas existir e estar lá. Só vamos ao cabeleireiro quando está grande (e assanha tanto que incomoda) ; e então deve ser cortado para ficar menor. Homens não vão a salões para mudar corte, fazer chapinha, pintar, aparar as pontas periodicamente, fazer permanente, dentre outras. As exceções existem e, em geral, são vistas como tal (bom eufemismo, não?).
Ocorreu que no último final de semana, escaldado pelo corte anterior, decidi gastar um pouco mais de dinheiro e dirigir-me a um salão decente, desses que têm mais de uma cadeira para sentar e uma plaquinha de corte "Unissex" na porta. Em geral procuro evitar essa opção pelo simples fato de que o maior público é obviamente o feminino, e me sinto deslocado no ambiente. Foi exatamente o que aconteceu.
Ao entrar a atendente (o primeiro salão com atendente em anos que frequento); perguntou-me quem procurava. Claro, eu não podia ter vindo para cortar cabelo. Informei que gostaria de fazer um corte e ela apontou para o fundo. Circulei entre chapinhas, manicures e pedicures, embelezadores até o fundo do salão, onde a profissional me ignorou. Homens não são vistos como clientes! Tive que explicar que queria cortar.
Então sentei-me e perguntei por uma revista. Ela me ofereceu uma coletânea de "Caras", "Viva" e "Revista do Amaury Júnior". Pedi uma "Veja", "Isto é" ou parecida e ela me olhou com uma expressão de desculpa. O melhor foram as explicações: "É mesmo, homem não gosta de ler sobre fofoca. Temos 3 revistas para homem aqui, só que não sei onde estão".
Reconheço que o corte ficou bom, no entanto, no próximo mês acho que vou voltar a ficar parecido com o Cebolinha.

2004/08/18

Conto Meu: Pesadelo

"Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela... "
Olavo Bilac

Outro documento. Outra hora com os olhos pregados no monitor e a dor de cabeça apenas aumentava. Após algum tempo fitei o texto piscando na tela e a vista pareceu turvar, tornando-se cada vez mais nebulosa. Repentinamente olhei para o lado e surgiu uma moça simples, de rosto comum, o tipo de pessoa que mesmo após alguns minutos de conversa facilmente se esquece o nome e o rosto.
Observei-a surpreso.
- Quem é você? Como entrou aqui?
- Sou uma conjunção e estou aqui porque você está me esquecendo! Você me trata como se eu fosse igual as outras: apenas escreve “e” isso “e” aquilo. Onde estão minhas amigas adversativas, subordinadas adverbiais, integrantes? Esqueceu do “mas”, “porém”, “todavia”, “pois”, entretanto”? Não me estudou no colégio?
Uma conjunção feminista? Onde eu estava com a cabeça? Estou ficando maluco? Cravei a vista novamente no texto, fechei os olhos e vagarosamente os abri esperando que ela desaparecesse. Agora havia duas!
Em desespero, voltei meu rosto para o lado e levei a mão a cabeça, atônito, enquanto observava a mulher pequena, porém de aparência notável que havia surgido.
- Duas agora? Quem é você?
- Sou uma crase e apareci apenas para você lembrar que eu existo. Você já me esqueceu duas vezes em seu texto! Como pode? Não tem vergonha?
Em um gesto brusco, tirei minhas mãos do teclado, cruzei os braços e as encarei. Decidi não corrigir meu texto. Ficaria daquele jeito por birra. Se eu fosse escutá-las não escreveria mais nada.
-Vocês não desaparecem? Olhem vou continuar a escrever mesmo, com vocês por aqui.
Voltei-me para o teclado e procurei restringir minha visão ao monitor. Resolvi não olhar, novamente quem sabe, assim elas desaparecem.
Como se tivesse surgido do nada uma mulher apareceu em pé em cima de minha mesa. Ela era pequena, muito magra, parecia versátil. Poderia facilmente se deslocar entre várias pessoas.
Agora eu estava entrando em pânico .
-Outra? Não consigo acreditar! Por que vocês não desaparecem? Só surgem lembrando problemas e não me deixando escrever! Quem é você?
- Sou uma vírgula e você me colocou de forma errada pelo menos três vezes em seu texto! Se errar de novo, eu vou me colocar em um lugar bem pior que sua mesa.
Suspirei vagarosamente. Decidi desistir. O que aconteceria se esquecesse um ponto de exclamação? Onde iria aparecer um hífen mal colocado? O que um acento agudo esquecido iria ralhar comigo? Escrever estava ficando cada vez mais difícil.

2004/08/16

Máscaras

"Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a idéia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa. O onanista é objecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois "amo-te" ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma idéia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constitui a actividade da alma."
Livro do Desassossego - Fernando Pessoa

2004/08/12

Conto Meu: A desconhecida

Um dia a vi andando na calçada, sem pressa, entre a multidão. Era bonita, tinha pele clara, rosto charmoso, corpo bem cuidado. Entretanto o que me chamou a atenção não foi a beleza, e sim a forma como se vestia e caminhava. Ela era diferente das outras de saia, batom e salto por usar uma calça e camisetas folgadas, sandália simples e por ter os lábios limpos. Caminhava como se fosse a única, como se os outros não importassem. Não precisava atrair a impressão de nós homens. Não precisava sentir-se mais bonita que as outras. Não precisava destacar-se.
Furtei-me a imaginá-la.
Imaginei-a conversando animadamente comigo, sorrindo sentada, apertando os joelhos contra os seios e perguntando quais os filmes de que gostava. Pensei em taças de vinho à noite, olhares e mãos juntas e em confissões sobre erros e acertos da vida. Inventei risos ébrios, beijos roubados, minha cabeça em seu colo e suas mãos em meus cabelos.
Imaginei-a fitando demoradamente meus olhos, fazendo uma careta linda e perguntando porque eu a olhava tanto. Pensei em sua expressão incrédula ao escutar minha resposta de que gostava de vê-la por ser bonita. Inventei seus gestos doces de carinho, desejando abraços e beijos.
Imaginei seu corpo, o formato de seu ventre, a descida de suas costas, o encontro de suas pernas. Pensei na beleza de suas curvas na penumbra, nas risadinhas de timidez ao mostrar sua nudez, nas tentativas de esconder os pequenos defeitos aqui e acolá , tão sem importância. Inventei seu jeito lânguido de dormir abraçada, com a cabeça em meu peito.
Você existe?

2004/08/11

Sobre a Vida

Às vezes eu acordo e parece que falta algo na vida. O dia-a-dia de trabalho, casa e diversão aparentam refletir uma rotina à qual sou preso; uma gaiola que eu mesmo montei e da qual não consigo fugir. A busca incessante de crescimento profissional, os cursos e estudos ficam sem a razão de ser; deixam de ter importância. No entanto o que me exaspera é que não sei exatamente o que falta.
Será que seria uma família? Esposa, filhos e novas responsabilidades trariam uma nova motivação à minha vida? Creio que sim. Ser solteiro e sozinho traz uma liberdade tão grande que torna a vida um pouco sem objetivo, sem pessoas queridas com que se preocupar, sem sonhos a realizar. No entanto acho que não é só isso. Novas responsabilidades podem se tornar novas grades na gaiola; é preciso algo mais.
Desconfio que sinto falta de me expor, de arriscar. Sempre fugi dos riscos, tanto emocionais quanto materiais. Não tive grandes paixões, não fiz grandes apostas, não tive problemas suficientes, não viajei o suficiente, não errei o suficiente (como bem escreveu Borges em seu último poema). Penso que tenho de ser mais impulsivo, fazer antes de pensar e não me culpar por meus erros e sim preparar-me para cometer o próximo.
Entretanto, após acordar, eu lavo o rosto, engulo tudo em seco e repito a rotina. A verdade é que ainda não sei como arriscar. A verdade, talvez, é que ainda não sei como aproveitar a vida.

2004/08/09

Conto Meu: Série "Entendendo as Mulheres"

Covardia

"Não quero pessoas que só tenham para entregar apenas sua superficialidade, suas emocoes rasas, sua temperatura morna, sua cor desbotada, seu brilho embaçado... Quero viver algo de verdade, intenso, de entrega, de compromisso... Não quero só aventura ou umas trepadas em noites de chuva. Não que tais opcões sejam ruins, mas tem hora que queremos MAIS do que soh isso!!!!
Quero alguém que quebre meu carro, que destrua minha casa, que quebre meus CD´s, que queime meus livros, que deixe marcas pelo meu corpo, que me ligue de madrugada dizendo que não consegue respirar sem mim...que viva como se fosse seu ultimo dia de vida e ao mesmo tempo faça planos para quando a gente for bem velhinho."

Adaptado de meu amigo Sérgio Fonseca (saudades, dude!)

Quando o viu chegando sentiu medo e soube que tinha de fugir. Percebeu os lábios secarem, o coração bater forte e a pele ficar mais quente quando ele a tocou.
-Oi, amor. Atrasei muito?
Não queria sentir-se assim. Tentava controlar-se, mas isso só a fazia se sentir mais culpada por não conseguir. Se ele não a abraçasse, não a quisesse, não demonstrasse,não a procurasse, não a tivesse, talvez se conformasse com a censura que o medo provocava.
-Atrasou demais, acho que dessa vez você exagerou.
Procurava transformar todo o sentimento em raiva. Raiva por suas mãos estarem tremendo, raiva por seus pensamentos só se ocuparem dele, raiva por ele a ter e não saber.
-Desculpe, não sabia que você ia ficar tão magoada.
Tentou beijá-la. Ela o afastou, tentando manter a compostura. Agora sabia, sabia que era uma dependente química dele. Sabia que iria esperar cada ligação ansiosamente e morrer por instantes enquanto a voz do outro lado não falar. Sabia que tinha de fugir ou se entregar.
-Vou embora. Esperei demais.
Levantou-se e observou seu olhar atônito enquanto saía sozinha. Algo dentro doía, algo que ela tentava desesperadamente afogar, algo que não controlava. Iria esconder-se, apagar suas lembranças, consolar-se com fumo, álcool, música e travesseiros; mentir, sim mentir, a todos negar de quem gostava.
O pior é que sabia que não podia culpar ninguém por isso. Não podia culpá-lo por o estar amando. Apenas ela era responsável por não ter a coragem de expressar o que sente. Sentia inveja das mulheres que amavam despudoradamente. Queria gritar, quebrar as coisas em sua casa, embebedar-se até a inconsciência, brigar com a primeira que aparecesse na sua frente. No entanto não conseguia.
Colocou seus óculos escuros para esconder as lágrimas que teimavam em aparecer e foi para casa.


2004/08/05

Conto Meu: O Homem Grande

"I hear a voice:
Your must learn to stand up for yourself
Cause I can't always be around
He says
When you gonna make up your mind?
When you gonna love you as much as I do?
When you gonna make up your mind?
"

Winter - Tori Amos

Ele era grande, tão grande que parecia que podia alcançar o céu. O menino pequenininho olhava embasbacado enquanto o via fazer coisas que lhe pareciam impossíveis.
Acompanhava-o levantar caixas que pareciam tão pesadas e queria ajudá-lo, mas mal as podia mover. Via-o alcançar coisas que não conseguia pegar. Fitava embevecido enquanto ele, com suas ferramentas, abria o rádio da sala e inexplicavelmente o colocava para funcionar. Sempre grande, tão grande que parecia que podia alcançar o céu.
O menino pequenininho queria ser como ele. Via-o rir com os amigos na mesa grande e tentava rir também. Puxava a barra da sua calça e pedia para provar a bebida amarela e fingia gostar, apesar do sabor amargo.
Gostava quando o pegava nos braços e o levantava e das brincadeiras, quando segurava em seus braços e o girava tão fácil! Era grande, tão grande que parecia que podia alcançar o céu.
Queria mostrar a ele como era inteligente. Apontava para as placas e ele sempre perguntava o que estava escrito. O menino sorria de satisfação ao responder.
Grande, tão grande que parecia que podia alcançar o céu!

Pai, feliz dia. Estou com saudades!

2004/08/02

Conto Meu: Série "Entendendo as Mulheres"

Fuga

"-I love you, Lulamae.
- I know you do, that´s just the trouble. It´s a mistake you´ve always made, trying to love a wild thing. You always were lugging home wild things. Once was a hawk with a broken wing, remember?
You mustn´t give your heart to a wild thing. The more you do, the stronger they get. Until it´s strong enough to run into the woods or fly into a tree. And then into a higher tree and then to the sky."

Audrey Hepburn no filme "Bonequinha de Luxo"

Foi em uma sexta-feira que ela teve aquela sensação estranha pela primeira vez. Estava ao final de uma festa, de braços dados com seu encontro quando notou que algo estava errado. Havia uma solidão inexplicável, como se todos seus amigos, o pretendente e os outros não existissem. Sentiu uma dor que não sabia explicar, uma melancolia que não sabia de onde vinha.
Fingiu que estava tudo bem. Afinal estava se divertindo, não? Abriu um sorriso amarelo e voltou a conversar, ignorando a estranha sensação no peito. Dormiu sozinha.
A noite foi estranha. Agarrava-se ao travesseiro como se fosse o companheiro que não existia e as lágrimas surgiram várias vezes, quase sem querer.Por que se sentia assim? Parecia inexplicável.
Sempre achou que o amor fosse controlável. Bastava não deixar que os homens se aproximassem demais, desmarcar encontros, sumir durante dias e sair com outro para esquecê-los. Gostar de alguém sempre significou sofrer e não se permitiria entregar-se a outro. Ria das amigas que faziam e perdoavam coisas impossíveis. O segredo era pensar sempre com a cabeça e esquecer o coração.
No entanto, não estava apaixonada. O que estava acontecendo então?
A solidão teimava em a invadir.