2004/07/28

Conto Meu: Série "Entendendo as Mulheres"

Traição

"Why do we crucify ourselves
Every day
I crucify myself
Nothing I do is good enough for you
I crucify myself
And my heart is sick of being in
I said my heart is sick of being in Chains"
Tori Amos - Crucify

Amor,
não sei como consigo escrever. Dói tanto por dentro que quase não consigo mover a caneta. E se eu não conseguir dizer o que preciso? E se apenas se alastrar como uma dor contagiosa e fatal? Como será?
Sei que você vai dizer que sou uma covarde, por não ter coragem de lhe enfrentar e dizer tudo frente-a-frente. Sim, hoje rasguei suas roupas, quebrei suas garrafas de uísque, afoguei minha raiva. No entanto, isso não compensa nem uma pequena parte do que você me fez sofrer.
Você não entende não é? Não entende como não posso esquecer o momento em que lhe vi com suas mãos de dedos inesquecíveis na cintura da outra, com o seu sorriso no sorriso da outra, com suas palavras no ouvido da outra, com sua língua na boca da outra. Quis fugir, quis me esconder, quis agarrá-lo, quis gritar, desesperar com a vida, mas apenas consegui sair da sua vista e procurar um canto.
Naquele momento não chorei. As lágrimas vieram e encheram meus olhos, mas eu não chorei. Não sei bem, mas meus olhos talvez estivessem mais confusos do que meus pensamentos, mais apertados do que meu coração, havia lágrimas, sim, mas talvez não houvesse razão ou espaço para que eu lhes desse vida. Por isso, ninguém viu quando as lágrimas abortadas morreram dentro de mim.
Bem que eu gostaria mas eu não consigo esquecer. Eu queria, quando você veio me pedir perdão e chorou. Eu queria quando voltamos a nos encontrar e a nos amar, mas eu não consigo. Há algo dentro de mim que se rasga toda vez que eu o vejo sorrindo, conversando com uma amiga, toda vez que você se atrasa enquanto estou à sua espera, toda vez em que você desvia o olhar e fica pensando, com a expressão que conheço tão bem, em algo que tento adivinhar. Descobri que continuar com você é me matar um pouco a cada dia.
Sei que se nos encontrarmos eu não conseguiria lhe enfrentar. Sei que você iria tentar me convencer a ficar, e eu....Como conseguiria resistir aos seus olhos que me despiram, às palavras que já me seduziram? Não, prefiro deixar apenas esta carta e espero que você entenda o que consegui escrever.
Se você realmente ainda gosta de mim não me procure. Nem a seu irmão, que está tentando me ensinar a lhe esquecer.

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